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A ditadura da produtividade

  • Foto do escritor: Bruna Barbosa Ribeiro
    Bruna Barbosa Ribeiro
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Já reparou como ficou difícil simplesmente fazer uma coisa de cada vez? A gente está no jantar e checa o celular. Está numa reunião e responde um e-mail. Está vendo série e já abre o computador pra "adiantar alguma coisa". Tenho a sensação que esquecemos como é estar inteira num único lugar.


Isso tem um nome: multitarefa. Mas a gente poderia chamar de outra forma, ansiedade disfarçada de eficiência.


Em algum momento, a produtividade deixou de ser uma ferramenta e virou um valor moral. Ser ocupado virou sinônimo de ser importante. Descansar virou preguiça. Pausar virou perda. Vivemos uma crença coletiva de que mais é sempre melhor. É sério que vamos continuar priorizando quantidade em vez de qualidade?


O resultado a gente vê em todo lugar: pessoas que não conseguem dormir sem culpa, que sentem um fundo de ansiedade constante mesmo quando estão "bem", que precisam se justificar por ter tirado uma tarde de folga. A produtividade virou um chicote silencioso que a gente carrega no próprio bolso, mas é claro que junto com o smartphone que nunca desliga.


O cérebro humano não foi feito pra fazer tudo ao mesmo tempo. Quando tentamos dividir a atenção, na verdade estamos trocando de foco rapidamente entre tarefas, e cada troca tem um custo cognitivo. O que chamamos de multitarefa é, na prática, uma sequência de meias atenções. Nada recebe o melhor de nós.


E o mais irônico: a obsessão por produtividade acaba sendo improdutiva. O estresse crônico prejudica a memória, a criatividade e a tomada de decisão. A ansiedade que vem da pressão de "nunca parar" consome exatamente a energia que precisaríamos pra render bem. É um ciclo que se alimenta de si mesmo.


Trago um dado alarmante e que muitos de vocês já devem ter tido acesso:


Segundo a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de ansiedade. São mais de 18 milhões de pessoas afetadas, o que representa 9,3% da população. E a preocupação com saúde mental no país saltou de 18% em 2018 para 54% em 2024, seu maior pico histórico.


Não é coincidência que esse crescimento acompanhe uma cultura que glorifica o esgotamento e trata o descanso como recompensa rara, não como parte natural da vida. A gente adoeceu coletivamente acreditando que o valor de uma pessoa está em quanto ela produz.


Sair desse ciclo não é fácil, porque ele está em todo lugar, nas redes sociais, nas conversas, nas expectativas do trabalho, nas nossas próprias cabeças.


Pra finalizar essa reflexão quero propor um exercício:


Exercício de percepção: onde você não consegue estar inteiro?


Hoje, tente observar quantas vezes você faz duas coisas ao mesmo tempo.

• Mexe no celular enquanto alguém fala com você

• Assiste algo enquanto responde mensagens

• Come sem realmente sentir o sabor

• Descansa já pensando no que “deveria” estar fazendo


Sem julgamento. Só perceba.


Depois, escolha um único momento do dia para fazer com presença total. Pode ser tomar café, tomar banho, ouvir uma música, caminhar ou conversar com alguém. Só uma coisa. Sem tela. Sem pressa. Sem adiantar outra tarefa ao mesmo tempo.

 

Vamos juntos reaprender que existir não precisa ser uma corrida contínua.


Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06/132943.

 
 
 

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