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Por que tanta gente sente que a vida perdeu o sentido?

  • Foto do escritor: Bruna Barbosa Ribeiro
    Bruna Barbosa Ribeiro
  • há 23 horas
  • 2 min de leitura

Tem muita gente hoje com dificuldade de encontrar sentido, propósito e até prazer na própria vida e isso não acontece por acaso.

 

Uma das coisas que temos perdido, silenciosamente, é a experiência de viver processos.

Processos têm começo, meio e fim. Eles nos colocam em contato com o tempo real da vida. Com espera. Com construção. Com presença.

 

Pensa, por exemplo, em algo simples como fazer brigadeiro.

Antigamente, você precisava decidir que queria, sair para comprar os ingredientes, voltar para casa, preparar, mexer a panela, esperar o ponto, servir e comer.

Existia um caminho entre o desejo e a satisfação.

 

Hoje, muitas vezes, esse caminho desapareceu.

Você quer brigadeiro, abre um aplicativo e em poucos minutos ele chega pronto.

E, embora isso pareça apenas praticidade, existe um efeito psíquico importante aí: quando quase tudo se torna imediato, a gente vai perdendo a tolerância ao processo, à frustração, à espera e ao contato com o que acontece entre o querer e o receber.

 

E é justamente nesse “entre” que muita coisa importante da vida acontece.

É no processo que a gente sente. É no processo que a gente percebe o corpo. É no processo que a gente elabora emoções. É no processo que a vida ganha espessura.

 

Quando tudo fica rápido, automático e instantâneo, muitas pessoas passam a buscar alívio sem conseguir identificar, de fato, do que precisam.

Então comem sem fome física. Compram sem necessidade real. Preenchem o vazio sem conseguir nomeá-lo.

 

A comida, por exemplo, muitas vezes deixa de ser apenas alimento e passa a funcionar como tentativa de regular ansiedade, cansaço, angústia, tédio ou desconexão interna.

 

Porque, quando eu não paro, eu também não sinto. E quando eu não sinto, eu tenho mais dificuldade de compreender o que realmente me falta.

 

Preparar um alimento, por outro lado, pode ser um pequeno exercício de reconexão.

Ao cortar, mexer, temperar, esperar, provar, você naturalmente é convidado a desacelerar. E, nesse estado de maior presença, há mais chance de perceber: eu estou com fome mesmo ou estou precisando de pausa? Eu quero comida ou conforto? Eu preciso me nutrir ou me acolher?

 

Talvez uma parte do nosso vazio contemporâneo tenha relação com isso: estamos consumindo muitas coisas prontas, mas vivendo poucos processos inteiros.

E sem processo, muitas vezes, a vida começa a parecer rasa. Sem corpo. Sem presença. Sem sentido.

 

Talvez propósito não seja algo que aparece de repente, como uma grande revelação. Talvez ele também seja construído no cotidiano, na repetição, no envolvimento com aquilo que pede tempo, presença e participação.

 

Às vezes, encontrar sentido começa em coisas pequenas: fazer o próprio café, preparar uma comida, cuidar de uma planta, escrever à mão, montar algo com as mãos, sustentar um caminho até o fim. A vida psíquica também precisa de experiências com começo, meio e fim para se organizar por dentro.

 

E talvez uma parte do que tanta gente chama de “falta de propósito” seja, na verdade, uma vida vivida rápido demais e sentida de menos.


Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06/132943

 
 
 

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