O pequeno mundo que salva a minha mente do excesso do mundo
- Bruna Barbosa Ribeiro

- há 1 dia
- 2 min de leitura

Eu não consigo conceber a ideia de passar por essa vida sem o meu pequeno mundinho de manualidades.
Desde criança eu sempre fui de brincar criando coisas, inventando, customizando. Gostava de transformar objetos simples em algo com a minha cara. Na adolescência isso diminuiu um pouco, talvez pela própria fase, pelos interesses que mudam, pelas urgências de ser adolescente. Ah… a adolescência.
Mas na vida adulta isso voltou com força.
Sempre amei customizar presentes, escrever cartas, preparar algo com as próprias mãos para alguém. Existe um cuidado ali que nenhuma compra pronta consegue substituir. Quando fazemos algo manualmente, colocamos tempo, presença e intenção naquele gesto. É quase como se uma parte de nós também ficasse ali.
Um fato curioso da minha infância é que meus pais não tinham dinheiro para comprar caderninhos para mim além dos da escola. Então eu juntava folhas de sulfite, dobrava, grampeava e customizava o meu próprio caderno. Se eu fecho os olhos hoje, ainda consigo lembrar da sensação gostosa que era criar aquilo.
Talvez tenha sido ali que começou esse amor por fazer coisas com as mãos.
Hoje eu tenho um maleiro cheio de materiais: papéis, canetas, colagens, fitas, pequenos tesouros criativos. E eu simplesmente não abro mão disso.
Às vezes me pergunto: por que tantos adultos abandonam isso?
Talvez porque crescer também nos ensinou, silenciosamente, que brincar, criar e fazer coisas com as mãos não seria mais produtivo. Como se a vida adulta tivesse que ser apenas funcional, prática, acelerada.
Mas existe algo profundamente regulador na manualidade.
Quando usamos as mãos para criar algo, o cérebro desacelera. A atenção se ancora no presente. A mente deixa de vagar tanto entre passado e futuro e se concentra na textura do papel, na escolha da cor, no gesto de colar, escrever, desenhar.
Isso ativa estados mentais muito próximos do que a psicologia chama de experiência de fluxo: quando estamos tão envolvidos em uma atividade que o tempo parece mudar de ritmo.
Além disso, atividades manuais também ajudam na regulação emocional. Elas organizam a mente, diminuem a ruminação mental e oferecem algo que muitas vezes falta na vida moderna: a experiência concreta de processo.
Você começa algo. Sustenta o meio. E chega ao fim. (Qual foi a última vez que fez algo assim?)
Em uma sociedade cada vez mais imediatista, que quer tudo pronto, rápido e sem processo, criar algo com as próprias mãos é quase um pequeno ato de resistência.
Porque manualidade não é só sobre produzir algo bonito.
É sobre habitar o próprio tempo. É sobre organizar o mundo interno enquanto organizamos algo fora de nós. É sobre lembrar que nem tudo na vida precisa ser rápido para ser valioso.
Talvez por isso, sempre que volto para minhas colagens, papéis e canetas, eu sinto que também estou voltando um pouco para mim.
Agora me diz:
Você tinha algum hobby manual na infância?
Desenhar, colar, pintar, montar cadernos, fazer artesanato, escrever cartas…
Em que momento da vida você parou de fazer isso?
Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06/132943





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