Entre encontros e ausências: atravessar o Natal com cuidado
- Bruna Barbosa Ribeiro

- 24 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

O Natal costuma ser apresentado como um tempo de encontro, afeto e celebração. Mas, para muitas pessoas, ele também se transforma em um espaço de exposição emocional. Reuniões familiares, perguntas recorrentes, comparações sutis e comentários feitos “sem intenção” acabam atravessando histórias, feridas e processos que ninguém ali conhece por completo.
Comentários sobre corpo, escolhas profissionais, relacionamentos, maternidade, dinheiro ou decisões de vida não são neutros. Mesmo quando vêm embalados como brincadeira, curiosidade ou preocupação, eles carregam expectativas sociais profundas sobre sucesso, felicidade e pertencimento. E é justamente por isso que, em muitos casos, funcionam como gatilhos. Não porque alguém seja “sensível demais”, mas porque esses comentários tocam pontos que já estiveram tensionados ao longo do ano, perdas, frustrações, lutos, comparações internas e cobranças silenciosas.
Gatilhos não surgem do nada. Eles se conectam a experiências anteriores, memórias emocionais e narrativas internas que já existem. Um comentário aparentemente simples pode reativar sentimentos de inadequação, fracasso, vergonha ou não pertencimento. E o Natal, por concentrar expectativas de harmonia e união, muitas vezes empurra essas reações para o silêncio: a pessoa engole o desconforto para não “estragar o clima”, pagando esse preço internamente.
Mas é importante lembrar que nem todos estarão em volta de uma mesa cheia. Há quem passe o Natal sozinhe, por escolha consciente, por limites necessários, por luto, por distância, por ausência de vínculos possíveis ou por circunstâncias da vida. E isso não é, por si só, sinal de fracasso, frieza ou falta de amor. Em muitos casos, estar só é um gesto de preservação emocional, um cuidado legítimo quando os encontros disponíveis ferem mais do que acolhem.
Aproveitar o Natal, para essas pessoas, pode significar construir rituais próprios, mesmo que simples. Preparar uma refeição com carinho, desacelerar, escrever sobre o ano vivido, assistir a algo que traga conforto, dormir cedo, respeitar o próprio ritmo. Também pode significar permitir que a data passe sem grandes significados, e tudo bem. Nem todo Natal precisa ser transformador; alguns precisam apenas ser suportáveis e gentis.
Para quem estará acompanhado, o cuidado pode aparecer na escolha das palavras, e também na escolha do silêncio. Nem tudo precisa ser perguntado, comentado ou avaliado. Respeito não está apenas no tom, mas na decisão de não invadir. Criar um ambiente mais leve passa por conversas que acolhem o presente, e não por cobranças sobre o que falta ou o que deveria ter sido.
Talvez aproveitar essa data seja justamente permitir que ela seja mais humana e menos idealizada. Um Natal em que o afeto não esteja condicionado a desempenho, explicações ou comparações. Um Natal em que o valor esteja na presença, seja ao lado do outro ou em companhia de si.
Que este Natal possa ser menos sobre cumprir roteiros e mais sobre criar espaços seguros. Menos sobre expectativas externas e mais sobre respeito às diferentes formas de estar. Às vezes, o maior gesto de cuidado, consigo e com o outro, é honrar os próprios limites e reconhecer que cada pessoa atravessa essa data à sua maneira.
Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06/132943





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