Por que escrever ajuda? A ciência por trás da escrita terapêutica
- Bruna Barbosa Ribeiro

- há 5 dias
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A escrita terapêutica passa a ser reconhecida como uma prática baseada em evidências científicas a partir dos estudos do psicólogo social James W. Pennebaker, iniciados na década de 1980, nos Estados Unidos. Seu trabalho é considerado um marco fundacional no campo da chamada expressive writing (escrita expressiva). E particularmente eu sou apaixonada nesse estudo!
O experimento original
Em seus estudos iniciais, Pennebaker propôs um protocolo simples e replicável:
Participantes eram convidados a escrever por 15 a 20 minutos, durante 3 a 5 dias consecutivos.
O tema da escrita deveria ser uma experiência emocionalmente significativa, geralmente associada a:
estresse intenso,
traumas,
perdas,
eventos não resolvidos ou evitados.
A escrita deveria ser livre, sem preocupação com gramática, estilo ou coerência narrativa.
Não havia necessidade de compartilhar o texto com ninguém.
Esse desenho experimental permitiu isolar a escrita como variável central e comparar os efeitos com grupos controle que escreviam sobre temas neutros (como a rotina diária).
Principais achados psicológicos
Os resultados mostraram que participantes que escreveram sobre experiências emocionais profundas apresentaram, nas semanas e meses seguintes:
Redução de sintomas de ansiedade e humor deprimido;
Diminuição de pensamentos intrusivos relacionados ao evento estressante;
Maior clareza emocional e capacidade de dar sentido à experiência vivida;
Melhora na regulação emocional e na percepção de controle interno.
Pennebaker observou que evitar ou suprimir emoções exige esforço cognitivo contínuo. A escrita, ao permitir a expressão simbólica do vivido, reduz essa carga mental.
Achados fisiológicos e imunológicos
Um dos aspectos mais inovadores da pesquisa foi demonstrar efeitos físicos mensuráveis, como:
Melhora em indicadores do sistema imunológico (ex.: aumento de atividade de linfócitos T que são um tipo de célula do sistema imunológico. Eles têm funções importantes, como: identificar vírus e bactérias, ajudar o corpo a combater infecções, regular respostas inflamatórias. São essenciais para manter o organismo saudável. );
Redução de visitas médicas;
Melhora em sintomas físicos associados ao estresse crônico.
Esses dados ajudaram a romper a falsa dicotomia entre corpo e mente, mostrando que elaborar emocionalmente uma experiência pode impactar diretamente a saúde física.
O mecanismo explicativo (por que funciona?)
Ao longo dos anos, Pennebaker e outros pesquisadores propuseram alguns mecanismos centrais:
1. Organização narrativa
Escrever transforma uma experiência difusa e caótica em uma narrativa com começo, meio e fim, o que ajuda o cérebro a integrar o evento à memória autobiográfica.
2. Nomeação emocional
Colocar sentimentos em palavras ativa áreas do córtex pré-frontal e reduz a ativação da amígdala, achado posteriormente corroborado por estudos de Matthew Lieberman (2007).
3. Redução da evitação
A escrita rompe o ciclo de esquiva experiencial. Ao enfrentar simbolicamente o que foi evitado, o sistema nervoso aprende que a emoção pode ser tolerada.
4. Construção de sentido
Com o tempo, os textos tendem a incluir mais palavras relacionadas a insight, causalidade e significado (“percebi que…”, “entendi que…”, “isso mudou minha forma de…”), o que está associado a melhores desfechos emocionais.
O que Pennebaker NÃO defendeu
É importante destacar que Pennebaker nunca afirmou que a escrita expressiva:
substitui psicoterapia,
elimina sofrimento rapidamente,
ou funciona da mesma forma para todas as pessoas.
Ele a compreendeu como uma ferramenta complementar, potente quando usada com cuidado, contexto e limites.
Contribuição para a escrita terapêutica contemporânea
A partir desses estudos, a escrita terapêutica passou a ser:
integrada à Terapia Cognitivo-Comportamental (registros emocionais),
utilizada em intervenções em saúde, luto e trauma,
aplicada em programas de psicologia positiva,
estudada pela neurociência afetiva.
Hoje, a expressive writing é uma das práticas mais estudadas no campo das intervenções breves baseadas em evidência.
Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06-132943
Referência clássica:
PENNEBAKER, James W. Escrita sobre experiências emocionais como um processo terapêutico. Psychological Science, v. 8, n. 3, p. 162–166, 1997.





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