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O que o seu 💩 tem a ver com a sua saúde mental?

  • Foto do escritor: Bruna Barbosa Ribeiro
    Bruna Barbosa Ribeiro
  • 10 de jan.
  • 4 min de leitura

Pode soar estranho à primeira vista, mas a forma como o seu intestino funciona diz muito sobre como a sua mente se sente. O que você elimina diariamente não é apenas resíduo: é também um termômetro do funcionamento do seu corpo, do seu sistema nervoso e da sua regulação emocional.


A ciência chama essa conexão de eixo intestino–cérebro, uma via de comunicação contínua entre o sistema digestivo e o sistema nervoso central. Hoje, já sabemos que essa comunicação acontece por múltiplos caminhos: neural (nervo vago), hormonal, imunológico e metabólico. Em outras palavras, o intestino não é um órgão isolado; ele conversa com o cérebro o tempo todo.


O intestino como “segundo cérebro”


O intestino abriga o sistema nervoso entérico, uma rede com milhões de neurônios capaz de produzir, responder e modular neurotransmissores. Cerca de 90% da serotonina do corpo (neurotransmissor ligado ao humor, bem-estar e regulação emocional) é produzida no trato gastrointestinal. Isso não significa que “felicidade nasce no intestino”, mas mostra que o equilíbrio intestinal influencia diretamente os estados emocionais.


Além disso, o intestino é a casa da microbiota intestinal, trilhões de bactérias, vírus e fungos que participam da digestão, da produção de vitaminas, da regulação inflamatória e da comunicação com o sistema nervoso. Quando esse ecossistema está em desequilíbrio (disbiose), o corpo tende a entrar em estado de alerta: inflamação de baixo grau, maior reatividade ao estresse e pior regulação emocional.


Inflamação, estresse e humor


Pesquisas mostram que processos inflamatórios crônicos de baixo grau estão associados a quadros de depressão, ansiedade e fadiga emocional. O intestino é uma das principais portas de entrada para essa inflamação. Quando a barreira intestinal está comprometida (o que se chama popularmente de “intestino permeável”), substâncias inflamatórias podem entrar na circulação e ativar respostas imunes que impactam o funcionamento cerebral.


O estresse psicológico também entra nesse ciclo. Situações de estresse prolongado alteram a motilidade intestinal, a composição da microbiota e a permeabilidade da mucosa. Ou seja: a mente estressa o intestino, e o intestino retroalimenta a mente. É um diálogo constante.


O papel do nervo vago


O nervo vago é uma das principais vias dessa comunicação. Ele leva informações do intestino para o cérebro e do cérebro para o intestino. Estudos em neurociência mostram que a estimulação vagal está associada à regulação emocional, à sensação de segurança e ao estado de calma. Alterações intestinais podem reduzir esse tônus vagal, favorecendo estados de ansiedade, hiperalerta e tensão.


E onde entra o “cocô” nisso tudo?


A frequência, a consistência, a cor e o odor das fezes refletem:

  • como está a digestão,

  • como está a absorção de nutrientes,

  • como está a microbiota,

  • e como está o trânsito intestinal.


Constipação crônica, diarreia recorrente, fezes muito endurecidas ou muito líquidas, presença frequente de gases e desconforto abdominal não são apenas questões digestivas. Elas frequentemente caminham junto com:


  • ansiedade,

  • irritabilidade,

  • cansaço emocional,

  • dificuldade de concentração,

  • alterações de humor.


Não porque “o cocô causa depressão”, mas porque corpo e mente fazem parte do mesmo sistema. O que acontece em um, repercute no outro.


O que a ciência tem mostrado


Estudos em psicologia, psiquiatria e gastroenterologia têm demonstrado que:


  • pessoas com depressão e ansiedade apresentam, com mais frequência, alterações na microbiota intestinal;

  • intervenções no intestino (como probióticos, prebióticos e mudanças alimentares) podem contribuir para melhora de sintomas emocionais em alguns casos;

  • escrever, falar e elaborar emoções também impacta positivamente o eixo intestino–cérebro, ao reduzir estresse e inflamação.


Isso não significa que cuidar do intestino substitui psicoterapia ou tratamento psiquiátrico. Significa que saúde mental é sistêmica. Ela envolve cérebro, corpo, história, vínculos, alimentação, sono e ambiente.


Em linguagem direta: o que isso quer dizer?


Quer dizer que:


  • ignorar o corpo dificulta cuidar da mente;

  • silenciar emoções impacta o intestino;

  • desregular o intestino fragiliza a regulação emocional.


O cocô não é um detalhe constrangedor da vida adulta. Ele é um sinal biológico. Um aviso. Um dado clínico. Um reflexo de como você está vivendo, sentindo e se relacionando com o próprio corpo.


Um olhar terapêutico


Na clínica, cada vez mais compreendemos que: o que não é elaborado emocionalmente tende a ser somatizado. E o intestino é um dos principais palcos dessa somatização.


Por isso, olhar para o funcionamento intestinal não é “exagero”, não é “moda”, não é “coisa alternativa”. É escuta clínica ampliada. É entender que o sofrimento psíquico não mora só na cabeça, ele se espalha pelo corpo.


Por fim


O seu cocô tem tudo a ver com a sua saúde mental porque:


  • o intestino participa da produção de neurotransmissores,

  • regula processos inflamatórios,

  • conversa diretamente com o cérebro,

  • e responde ao estresse emocional.


Cuidar da saúde mental é, também, cuidar do corpo. E cuidar do corpo é, inevitavelmente, cuidar da forma como você sente.


Não existe mente saudável em um corpo constantemente em estado de alerta. E não existe corpo em equilíbrio quando as emoções são ignoradas.


Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro – CRP 06/132943

 

Referências: Damásio (1999, 2000); LeDoux (2001); Mayer (2018); Cryan & Dinan (2012); Carabotti et al. (2015); Dinan & Cryan (2017).

 
 
 

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