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TDAH, exaustão cerebral e o uso abusivo do celular: o que estamos confundindo?

  • Foto do escritor: Bruna Barbosa Ribeiro
    Bruna Barbosa Ribeiro
  • 12 de jan.
  • 4 min de leitura


Nunca se falou tanto em TDAH quanto hoje. Nunca se diagnosticou tanto. Nunca se pesquisou tanto. E, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão exaustos, hiper estimulados e fragmentados cognitivamente.


Isso não é coincidência.


Vivemos na era da atenção sequestrada. O cérebro humano, que evoluiu para lidar com estímulos pontuais e significativos, passou a ser exposto a um volume contínuo, rápido e imprevisível de informações: notificações, vídeos curtos, rolagem infinita, múltiplas abas, múltiplas demandas.


Do ponto de vista neurobiológico, isso tem impacto direto em áreas como:


  • córtex pré-frontal (atenção, planejamento, autorregulação),

  • sistema dopaminérgico (motivação e recompensa),

  • rede de modo padrão (capacidade de introspecção e foco interno).


O resultado? Dificuldade de concentração, inquietação mental, impulsividade, procrastinação, fadiga cognitiva, sensação de “mente ligada o tempo todo”, sintomas que se parecem muito com TDAH, mas que em muitos casos são expressão de sobrecarga neural e não de um transtorno do neurodesenvolvimento.


Exaustão não é transtorno, mas pode parecer


O uso abusivo do celular, especialmente em formato de estímulos rápidos e recompensas imediatas (como reels, tiktok, notificações constantes), treina o cérebro para a dispersão. Não porque a pessoa “tem TDAH”, mas porque o cérebro aprende a funcionar assim.


A neurociência chama isso de neuroplasticidade dependente de uso: o cérebro se adapta ao padrão de estímulo que recebe. Se ele é constantemente interrompido, ele se torna menos tolerante à continuidade.


Ou seja: muitas pessoas hoje não estão desatentas, estão hiper estimuladas, cansadas e sobrecarregadas.


Isso gera um estado que, clinicamente, podemos chamar de:


  • fadiga atencional,

  • exaustão cognitiva,

  • sobrecarga sensorial,

  • esgotamento mental.


E tudo isso imita sintomas de TDAH.


Mas o TDAH existe e precisa ser respeitado


Importante dizer com clareza: o TDAH é real, sério e tem base neurobiológica consistente.


É um transtorno do neurodesenvolvimento, descrito no DSM-5-TR, com critérios específicos, início na infância e impacto persistente em diferentes contextos da vida.


O problema não é diagnosticar TDAH. O problema é diagnosticar TDAH sem avaliar o contexto.


Sem investigar:


  • padrões de uso de tela,

  • qualidade do sono,

  • nível de estresse,

  • sobrecarga emocional,

  • demandas de vida,

  • histórico de trauma,

  • ambiente de trabalho ou estudo.


Quando tudo vira TDAH, perdemos a chance de cuidar do que realmente está adoecendo.


Por que hoje se diagnostica mais?


Aqui entram dois fatores importantes:


  1. Mais informação e mais acesso

    Hoje as pessoas conhecem o termo, reconhecem sintomas, buscam ajuda. Antigamente, muitas crianças e adultos com TDAH passavam invisíveis, rotulados como “preguiçosos”, “bagunceiros”, “desinteressados”.

Isso é avanço.


  1. Mais sofrimento e mais confusão diagnóstica

    Mas também vivemos uma era de:

  2. excesso de estímulos,

  3. jornadas mentais sem pausa,

  4. pressão por produtividade,

  5. ausência de descanso real,

  6. hiperconectividade.


Isso produz sintomas que se parecem com transtornos, mas que são, em muitos casos, respostas adaptativas a um ambiente adoecedor.


Nem todo cérebro que não foca está doente. Às vezes, ele só está cansado demais para continuar performando.


Um olhar clínico mais honesto


Na clínica, cada vez mais vemos pessoas dizendo:

“Não consigo mais me concentrar.” “Minha mente não para.” “Começo mil coisas e não termino.” “Me sinto improdutiva, dispersa, impulsiva.”


E, muitas vezes, o que aparece não é TDAH, é:


  • estresse crônico,

  • ansiedade,

  • privação de sono,

  • uso abusivo de telas,

  • sobrecarga emocional não elaborada.


O cérebro não está com déficit. Ele está em colapso de estímulo.


Em resumo, de forma clara:


  • Sim, o TDAH existe e precisa ser diagnosticado com seriedade.

  • Sim, hoje há mais diagnósticos porque há mais informação (e isso é positivo).

  • Mas também há muito sofrimento que está sendo medicalizado sem ser compreendido.

  • E há uma geração inteira exausta cognitivamente pelo uso abusivo de tecnologia, sendo confundida com transtorno.


Nem tudo é TDAH. Às vezes, é o corpo e o cérebro pedindo: menos estímulo, mais pausa, mais silêncio, mais presença.


Uma pergunta que fica


Antes de perguntar “será que eu tenho TDAH?”, talvez valha perguntar:

como está a minha relação com o tempo, com o descanso, com o celular e com o meu próprio limite?


Porque não é só a atenção que está em crise. É o modo como estamos vivendo.


Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro – CRP 06/132943




Referências:


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