Se o casal nunca fica sozinho, o que está sendo evitado?
- Bruna Barbosa Ribeiro

- há 29 minutos
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Casais que nunca viajam sozinhos e estão constantemente acompanhados por amigos ou familiares podem revelar mais do que uma simples preferência social. Esse padrão pode indicar dinâmicas emocionais específicas relacionadas à intimidade, à autonomia e à forma como o vínculo conjugal é construído.
Relacionamentos saudáveis costumam equilibrar três dimensões: individualidade, conjugalidade e socialização. Quando o casal ocupa sempre espaços coletivos e evita momentos a dois, pode haver uma dificuldade em sustentar a intimidade sem mediações externas. A presença constante de terceiros, ainda que prazerosa, funciona como um “amortecedor” emocional que reduz o contato direto com conflitos, silêncios, frustrações e vulnerabilidades que naturalmente emergem quando duas pessoas estão sozinhas.
Para a Teoria do Apego, alguns casais constroem vínculos baseados em padrões de apego ansioso ou evitativo. No apego ansioso, a companhia constante de outras pessoas pode oferecer sensação de segurança e validação, diminuindo o medo de rejeição ou abandono dentro da relação. Já no apego evitativo, a presença de amigos e familiares pode servir como uma estratégia inconsciente para evitar intimidade emocional profunda, que exige exposição, diálogo e negociação direta entre o casal.
Há também aspectos ligados à comunicação. Casais que convivem sempre em grupo tendem a manter conversas mais superficiais ou mediadas socialmente. Isso pode dificultar o desenvolvimento de uma comunicação íntima, onde temas sensíveis como insatisfações, desejos, medos e expectativas possam ser abordados com segurança. A ausência desses espaços a dois pode levar a uma relação funcional e socialmente ativa, porém emocionalmente pouco aprofundada.
Outro ponto importante envolve a identidade conjugal. Viagens e experiências compartilhadas a dois contribuem para a construção de memórias próprias, rituais e narrativas exclusivas do casal. Quando todas as vivências são coletivas, a relação pode se diluir na dinâmica do grupo, tornando-se menos definida enquanto unidade autônoma. A experiência de “ser casal” passa a depender do contexto social, e não da qualidade da conexão entre as duas pessoas.
Isso não significa que viajar com amigos seja negativo. Pelo contrário, relações que mantêm vínculos sociais ativos tendem a ser mais saudáveis e menos fusionais. O ponto de atenção surge quando não existe espaço para a experiência a dois, ou quando o casal demonstra desconforto, tensão ou evitamento diante da possibilidade de ficar sozinho.
É importante observar:
• Há dificuldade em sustentar conversas profundas quando estão sozinhos?
• O silêncio entre o casal gera desconforto ou distância?
• Existe medo de conflitos emergirem sem a presença de outras pessoas?
• A relação depende do ambiente social para se manter leve ou funcional?
Relacionamentos íntimos exigem momentos de encontro genuíno, onde duas subjetividades se reconhecem sem distrações externas. Estar a sós não é apenas um detalhe logístico, é um espaço psíquico onde a relação se constrói, se fortalece e, muitas vezes, se revela.
Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06/132943





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