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Quando o desejo do outro não nos escolhe

  • Foto do escritor: Bruna Barbosa Ribeiro
    Bruna Barbosa Ribeiro
  • 19 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura


Aceitar o desejo do outro quando ele não coincide com o nosso é um dos exercícios emocionais mais complexos da vida adulta. Porque, antes de ser sobre o outro, isso toca diretamente naquilo que desejamos controlar, preservar ou evitar perder. O desejo alheio, quando nos frustra, rompe fantasias de reciprocidade perfeita e nos confronta com um dado fundamental das relações humanas: o outro é um sujeito, não uma extensão das nossas vontades.


Do ponto de vista psicológico, esse conflito ativa emoções primitivas como frustração, rejeição e medo de abandono. Nosso cérebro tende a interpretar a não correspondência como ameaça, não apenas ao vínculo, mas à nossa autoestima. É por isso que, muitas vezes, insistimos, argumentamos ou tentamos negociar o desejo do outro, como se fosse possível convencê-lo a sentir diferente. Não por maldade, mas por dificuldade de tolerar o limite que nos é imposto.


Aceitar o desejo do outro exige maturidade emocional porque implica reconhecer a alteridade: o outro tem história, valores, tempos e necessidades que não nos pertencem. Na psicanálise e na psicologia relacional, esse reconhecimento é entendido como um passo essencial para relações mais saudáveis. Quando não conseguimos fazê-lo, tendemos a confundir amor com fusão, cuidado com controle, vínculo com posse.


Na perspectiva da Terapia Cognitivo Comportamental, esse processo também envolve revisar crenças disfuncionais, como “se a pessoa me ama, deveria querer o mesmo que eu” ou “não ser escolhido significa não ser suficiente”. Essas interpretações automáticas intensificam o sofrimento e dificultam a aceitação. Aceitar o desejo do outro não significa concordar ou abrir mão do próprio desejo, mas compreender que duas vontades legítimas podem coexistir sem que uma invalide a outra.


Há dor nesse caminho. Luto, inclusive. Luto pela expectativa que não se concretizou, pela narrativa que criamos e que precisou ser revista. Mas há também crescimento. Quando conseguimos sustentar essa frustração sem nos desorganizarmos, fortalecemos nossa autonomia emocional. Passamos a nos relacionar não a partir da carência, mas da escolha.


Respeitar o desejo do outro é, paradoxalmente, um ato de respeito por si. Porque nos tira de relações baseadas na insistência e nos aproxima de vínculos onde há liberdade, responsabilidade afetiva e verdade. Nem sempre é confortável. Mas é profundamente honesto. E, muitas vezes, é nesse desconforto que amadurecemos emocionalmente.


Psicóloga Bruna Barbosa Ribeiro - CRP 06/132943

 
 
 

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